18 de maio de 2011

Sobre cebolas e escolas


Rubem Alves


As cebolas ocupam um lugar destacado no meu pensamento. Penso-as, em primeiro lugar, de maneira científica: cebola, bolbo da planta Allium cepa, que ocupa um lugar definido na árvore das classificações botânicas. Penso-as, a seguir, de forma culinária: entidades acidentalmente lacrimogéneas, de tamanhos variados, cheiro característico e gosto saboroso, que se prestam a ser usadas em molhos, saladas, conservas e sopas. Penso-as, em terceiro lugar, como metáforas poéticas e descrevo-as, com Neruda, como “rosas de água com as suas escamas de cristal”. O quarto uso, acho que é só meu: a cebola faz-me pensar filosófica e pedagogicamente.

A cebolafilosófica apareceu-me ao terminar a leitura do livro de Piaget, Biologia e Conhecimento. Neste livro ele sugere que a aprendizagem não é apenas um processo lógico: é um processo vital. O organismo aprende para poder “comer” o seu meio ambiente. O que não é vital não é aprendido. Aprender é fazer o corpo crescer por expansões sucessivas. Nesse momento, apareceu-me a ideia da cebola cortada horizontalmente. Basta olhar para compreender como a cebola aconteceu: tudo começou num círculo interno mínimo. Em torno dele, as outras camadas foram crescendo. Sem saltos. A camada número três só aparece depois das camadas número um e número dois. Na cebola não há buracos.

Cebola, metáfora da aprendizagem. Aquele círculo mínimo central é o corpo do aluno. O corpo, a que Nietzche dava o nome de grande razão, procura aprender o mundo que o cerca, a fim de o poder apreender: o meio ambiente deve-se tornar comida. Para que o corpo viva. O que não se transforma em comida, o que não é vital para o corpo, não é aprendido.

Ela era professora universitária. Passara direitinho pela escola. Ensinaram-lhe física eléctrica, watts, volts, ohms, circuitos e motores. Tudo no papel. É preciso para passar no exame. Não estava já na sala de aula, onde se fala. Estava na sala de sua casa, onde acontece. As lâmpadas apagaram-se. Sentiu-se perdida. A escola não lhe ensinara o que fazer na sua casa. Lembrou-se de que o pai, quando as lâmpadas se apagavam, trocava um fusível. Apelou para o filho de oito anos: “Onde estão os fusíveis?” O menino respondeu: “Já não há fusíveis, mãe. Há disjuntores”. A mãe não sabia o que era um disjuntor. Perguntou se fora na escola que aprendera aquilo. O menino disse que na escola não se aprendiam essas coisas de casa. Aprendera com o pai. Então o menino foi até à caixa dos disjuntores, viu o que tinha caído, ligou-o e a luz voltou.

A escola ensinara a mãe a resolver problemas da camada número 10 da cebola, mas não ensinara a resolver os problemas da camada número dois. Confessou-me depois, meio envergonhada, que também não sabia consertar tomadas e interruptores. E nem sabia manusear martelos e chaves de fenda.

As nossas escolas todas louvam Piaget. Mas não lhe prestam atenção. Esquecem-se de que as categorias lógicas só têm sentido como ferramentas para se compreender o meio ambiente em que se vive.



Fonte: Correio da Educação

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